Liberdade, essência e existência
domingo, 11 de maio de 2014
SABERES em METODOLOGIA e DIDÁTICA do ENSINO de FILOSOFIA
Ao longo da Disciplina
Metodologia e Didática, o professor Jorge Nery tem colaborado bastante para que
haja uma reflexão sobre o ensino de Filosofia. As contribuições durante as
aulas, discussões de textos como os de Cerletti (2009) e Gallo (2012) foram
enriquecedores no sentido de mostrar a complexidade da docência e um repensar
sobre a Filosofia como disciplina escolar e possibilidade de abertura para a
criticidade.
Assim, o posicionamento filosófico-pedagógico
demonstrado pelo professor pode ser ratificado, quando o mesmo propõe o ensino
de Filosofia como um problema filosófico. Em seu artigo intitulado Ensino de filosofia como problema filosófico,
é discutida a docência em filosofia na educação básica, apontando que o ensino
de Filosofia exige decisões filosóficas por parte do professor. Além disso traz
a obrigatoriedade do ensino de Filosofia no Ensino Médio e a historicidade
complexa dessa disciplina no currículo escolar.
Apresentando o aspecto problematizador
da filosofia na sociedade, o autor traz a marcante figura de Sócrates para
demarcar um, entre vários momentos, em que a Filosofia desestruturou as
cristalizações de um modo de pensar. Por meio dessa perspectiva histórica,
compreende-se que muitos filósofos ao longo dos tempos contribuíram para a
visualização de muitos problemas, de ordem social, político, pessoal entre
outros além de favorecer o conhecimento do próprio homem.
Assim também pode ocorrer com
a Filosofia enquanto disciplina escolar pois ainda que haja a necessidade de
abordar aspectos conteudista de
filosofia, esta pode desenvolver habilidades críticas nos discentes. Trazendo,
novamente, para a discussão o personagem Sócrates e referenciando-o na
concepção do filosofo educador, percebemos que sua metodologia desloca, de
certa forma, a atenção para o homem, ou seja, qual a natureza do sujeito que
conhece.
Ainda que este não seja a
parte crucial do artigo, vale ressaltar esse filósofo que utilizava o diálogo
como método de educação, favorecendo, constantes questionamentos de seus
educandos sobre pensamentos e paradigmas cristalizados. Nesse sentido, havia a
figura do “mestre ignorante” uma vez que estava sempre disposto à novidade. Considerando
a proposta professor-pesquisador indicada, o autor faz também algumas
considerações sobre a escola enquanto lugar de produção e não apenas reprodução
de saberes, sendo que a compreensão de textos de filosofia não finda nem
conclui o processo educativo em Filosofia. O ensino, nessa perspectiva, prima
por conhecer os sujeitos que aprendem, favorecendo o filosofar para além da
apreensão linear da Filosofia.
Nota-se, portanto, que o
planejamento e a didática para ensino de Filosofia exige do professor repensar
seus objetivos para com a disciplina que leciona. Os conteúdos e a metodologia
estarão, desse modo, subordinados aos objetivos do docente, implicando em uma
postura filosófica e não apenas pedagógica pois não há “receitas prontas” de
como dar aulas, elas ocorrem no próprio fazer como um fluxo sempre disposto ao
novo, ao surpreendente.
Um outro exemplo da
otimização das aulas de Metodologia e Didática do Ensino de Filosofia foi a
discussão de textos como o de Murcho (2008), A natureza da Filosofia e o seu ensino. Como o próprio título já
sugere, o artigo aborda algumas equivocidades no ensino de Filosofia gerado
pela falta de entendimento da Filosofia enquanto conhecimento de natureza
aberta e especulativa. Assim, ao apresentar algumas possibilidades de ensino, o
autor indica que é fundamental compreender esse caráter da Filosofia para haver
uma compreensão fecunda da docência com esta disciplina.
Nessa perspectiva e
assimilando-se com a fala do professor Jorge Nery, muitas vezes, em sala de
aula, o texto afirma que “é necessário distinguir cuidadosamente as
competências estritamente filosóficas da informação histórica. Assim, torna-se
notório que no ensino de Filosofia deve-se atentar para não confundir a
história da filosofia com o ensino de Filosofia, propriamente dito, ou seja, o
que os filósofos propõem em sua Filosofia. Ao tratar da Filosofia Moderna, por
exemplo, é essencial que o docente não se limite à cronologia da atuação dos
filósofos, listando os pensadores, características de suas filosofias e
contextos históricos. Torna-se necessário ir além, no sentido de “mergulhar”
nos conceitos edificados pelos filósofos, não permanecendo apenas na
compreensão dos conceitos.
Murcho (2008) defende, ao
longo do artigo, que a raridade de resultados consensuais substanciais é uma das
principais justificativas que diferencia a Filosofia de outras tais como
História ou Física. Essa característica do conhecimento filosófico também
contribui para equivocidade de sua natureza no processo de ensino-aprendizagem,
posto que, não raro, a escolarização consegue visualizar o caráter singular do
ensino de Filosofia. Segundo o autor, ela é uma disciplina “a priori” ou que se
faz pelo pensamento apenas.Em filosofia não há métodos formais de prova, pois a
lógica é apenas instrumental, que não resolve os problemas filosóficos nem
determina o que é ou não um problema filosófico.
Um outro pondo relevante do
texto refere-se sobre os conceitos em Filosofia, sendo que o trabalho
filosóficos não se resume a saber qual é a natureza e estrutura de um conceito
(de justiça, liberdade, bondade), ainda que esclareça muitos destes. A
finalidade seria, então, esclarecer a natureza das realidades que respondem a
esses conceitos. Investigar o que é a liberdade
em si, por exemplo, com base em argumentos lógicos que justificam determinada posição
filosófica.
No que se refere à
argumentação, segundo o autor, isso não ocorre somente com a Filosofia, “todas
as teorias, sejam científicas, históricas ou filosóficas, se sustentam em
argumentos”. Percebe-se, nessa perspectiva, a importância e o lugar da
construção dos argumentos no ensino de filosofia, quando seu processo de
ensino-aprendizagem não se resume a compreender teorias. É manifesta a
visibilidade e importância dos argumentos em Filosofia na compreensão de problemas
e teorias. Por isso, urge possibilitar autonomia ao aluno para que ele mesmo
saiba filosofar, sendo que, muitas vezes, o ato de Filosofar ainda deve ser
iniciado pelo próprio professor de Filosofia.
Posso afirmar, portanto, que
enquanto professora que já leciona, na Educação básica, estou me surpreendendo
com a metodologia e didática da docência de filosofia e percebendo que ainda
sempre há o que discutir quando se trata do processo ensino-aprendizagem,
especialmente no que se refere à escolarização da Filosofia. O próprio caráter da Filosofia exige do
professor uma postura filosófica ao elencar o conteúdo e objetivos de seu
ensino, conforme enfatiza o professor-autor Jorge Nery o ensinar Filosofia não
se resume a um problema pedagógico, mas, acima de tudo, filosófico.
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